Perdas inevitáveis e
ganhos substanciais - Motohead.
Acabei de ver o Massa ficar
sem motor , a três voltas da bandeirada , liderando um GP. Merda!
Isso porque o motor era um Ferrari....
Inacreditável , quase chorei.
Puta corrida , puta habilidade , puta esforço e .... , nada.... ,
no points.
Desacreditado da força que move uma de nossas maiores paixões , os
sistemas mecânicos , comecei a pensar na direta relação que esta
infeliz ocorrência tem com nosso dia a dia.
Lembrei-me então do imortal , guitarrista , critico , político ,
maestro , humorista , compositor : Frank Zappa. Eu disse
guitarrista?? Ah tá…:
“All what we got here´s American Made
It´s a little bit cheesey
But it´s nicely displayed”
(Flakes ; 1979 / Sheik Yearbouti)
Em Português , mais ou menos isso: “Tudo o que temos é Americano /
É um pouco mais “borrachudo” (de queijo) mas é bem apresentado”
Meu mecânico , na verdade meu amigo , sabiamente já havia me
advertido a respeito.
A análise é simples , direta e facilmente comprovável.
Os motores vão ficando cada vez mais “bravos” , os mecanismos cada
vez mais complexos , o nível de performance dos conjuntos cada vez
mais alto. É a evolução.
Em contra partida , a concorrência é cada dia maior e o mercado
não perdoa nem permite exageros.
Frutos do trabalho , da competência , do estudo , dos testes e da
combinação de múltiplas matérias primas , o resultado final , a
máquina propriamente dita , tem um só destino primário: o showroom.
Lá , o resultado de todo esse árduo processo leva um único nome ,
na verdade , um numero: o preço.
A natureza do mercado é implacável. Só sobrevivem os que , ao
final de todo esse processo , apresentam os menores números nas
tarjetas.
Praticamente de nada vale , um projeto maravilhoso , sem um preço
competitivo.
É insustentável. Mesmo que eficiente , tem seu fim certo.
Tenho experimentado os dissabores desta realidade.
Dia destes , tomei uma vaca com um canhão novo , zero , e tive que
partir para a restauração do mesmo.
Se não tivesse vivenciado , não acreditaria no que se sucedeu.
Na incansável busca do menor peso e da melhor performance , nossas
máquinas estão se tornando “descartáveis”.
Tudo é dimensionado para trabalhar no limite da utilização
pretendida. A resistência dos materiais e estruturas não permite
praticamente nada fora daquele padrão.
Experimente pegar sua caixa de ferramentas e promover reparos e
manutenções periódicas numa motocicleta “moderna” , de competição.
Qualquer uma.
Mesmo tendo ferramentas de boa qualidade e boas noções de mecânica
, suas chances de finalizar o trabalho sem danificar nada são
muito pequenas.
Os parafusos , travas , porcas e encaixes , são produzidos a
partir de ligas metálicas cada vez mais leves e frágeis.
As especificações de espessura e peso são cada vez mais
restritivas , o que torna o equipamento ultra-sensível.
Isso vem ocorrendo num espectro grande que envolve todo o tipo de
máquinas , especialmente , as de performance , onde o peso é alvo
constante e o preço permite algum “luxo” , do tipo a utilização de
ligas metálicas mais , “exóticas”.
Fatos corriqueiros , diários , são prova desta realidade.
Repare nos parafusos de regulagem de suspensões (e vazão de ar) da
grande maioria das motos especiais usadas. Dificilmente
encontram-se todos em perfeito estado , a não ser que o
proprietário não saiba nem para o que servem e não os utilize.
Fato relativamente comum...
Outro dia um velho amigo , que treinava com freqüência MX e SM com
a mesma moto , se rendeu e comprou uma segunda moto.
As razões foram duas: o set up de suspensões é claro , e , tão
importante quanto , a inviabilidade de montar-se e desmontar-se
seguidas vezes rodas e ajustes gerais , sem danificar parafusos ,
porcas e roscas no processo.
Minha obra de “restauração” do canhão avariado não foi diferente e
, dentro da mesma filosofia ,
|
 |
|
|
, me reservou várias surpresas.
Rodas de liga , modernas , amassadas , dificilmente são
ruceperáveis. O negócio é tão orientado à performance que , a
margem de tolerância para abusos e reparos é praticamente
inexistente.
Dia destes , em conversa com um amigo , relembrava com saudades
dos tempos das linhas XR , DR , KLX e XT.
Este “nicho” , praticamente desapareceu.
Hoje , no off road , ou você compra uma moto de uso “misto” , com
foco no asfalto/cidade , ou compra uma “adaptação” de uma “mx” de
alta performance.
As linhas de conjuntos projetados para o Enduro , com toda a
exigência de resistência característica desta modalidade , salvo
raras exceções , não existem mais.
Na década de 80 , você comprava uma moto de Enduro que te levaria
de São Paulo a Manaus , por terra , sem maiores preocupações.
Hoje , dentro do mercado comum , acessível , disponível , você não
encontra mais isso.
Esse “nicho” acabou sendo preenchido por fabricantes menores , mas
, isso traz outro problema. A disponibilidade e acessibilidade
restrita.
A modernidade caminha de mãos dadas com o aumento de performance e
ambas , romperam laços com a endurance , confiabilidade e
facilidade de manutenção.
That’s the way it is. Não se pode ter tudo.
O ideal seria podermos dar continuidade à corrida tecnológica e
fazermos isto num budget ilimitado.
Talvez isto , viabilizasse a convivência do melhor dos dois mundos
, performance e durabilidade.
Infelizmente , na eterna guerra dos showrooms , performance e
preço são as armas , a durabilidade , nem sempre é lavada em
conta.
Assim , nossas motos vão se tornando cada vez mais “descartáveis”
e , a possibilidade de mantê-las em forma , por um período
prolongado , cada vez menor.
Para não dizer que este futuro me traz certo desapontamento , sigo
procurando razões para acreditar que este é de fato um processo
evolutivo. Sigo admitindo que haverão perdas inevitáveis e , em
contra partida , ganhos substanciais.
Preocupado... , saio prum rolê.
Nada melhor , pra organizar os pensamentos!
A idéia é checar o dia de treinos livres para uma etapa daquela
que , na atualidade , representa uma das maiores competições do
Off Road motociclistico Paulista.
Neste contexto , vou dar num hotel fazenda , relativamente próximo
da Capital , incrustado literalmente no meio da Serra da
Mantiqueira.
Inerente à natureza de um empreendimento deste caráter , lá
chegando , encontro toda uma estrutura de lazer , conforto e
entretenimento.
Nada de novo , não fosse uma maravilhosa e inusitada surpresa
dentre as atividades disponíveis: uma pista de XC ,
particular!!!!!
Não acreditei .... Era tudo o que eu queria!
Nosso grande amor , as mulheres , e a pratica do nosso esporte
favorito , o sexo , trazem maravilhosas conseqüências chamadas :
crias.
Uma vez merecedores de tamanha benção , é da nossa
responsabilidade e prazer , criar condições para tê-los sempre ao
nosso lado.
E assim , numa prova definitiva de que nosso caminho , “apesar de
tanta barbaridade” ainda é iluminado , alguém teve a brilhante
idéia de traçar e manter um circuito de trilhas em torno de todas
as comodidades apreciadas por nossos familiares.
Por alguns instantes , esqueci a “raiva” dos parafusos , porcas e
encaixes feitos “de queijo” , e , deixe-me levar pelo prazer de
vislumbrar naquele lugar , uma oportunidade de reunir toda a
família num ambiente saudável , longe dos circuitos urbanos de
Shoppings e restaurantes.
Aquele “oásis” me fez pensar que , de fato nem tudo está perdido.
Se nossas motos chegarão um dia à condição de descartáveis , é num
empreendimento destes , junto com amigos , mulheres e filhos que
eu pretendo , “consumir” , as minhas.
MOTOHEAD
|
 |
|